terça-feira, 29 de junho de 2010

Ratinhos



Lembro-me perfeitamente daquela tarde de chuva em que me fizeram levantar da cadeira de baloiço em frente à lareira e me conduziram ao vão das escadas para constatar uma verdadeira surpresa. A casa dos Avós podia ter ratos. Os sinais, aparentemente conclusivos e que se exteriorizavam em pequenas manchas castanhas no ancião soalho de madeira, marcaram para sempre os rostos dos meus primos mais novos. Admirados ou revoltados, passaram a brincar junto de mim, mais sossegados, no calor da lenha a arder, ou quando podiam, lá fora na quinta. Mas os dias, dali para a frente, nunca mais foram iguais, nem podiam ter sido. A casa dos Avós podia ser um albergue de ratazanas e não o que esperavam que fosse: um palácio de mimos e brincadeiras, onde se come pudim a toda a hora e compota caseira de amora barrada em deliciosas torradas, enquanto de lá fora se sente o cheiro da terra molhada e se vê pela janela da sala um céu cinzento, carregado de nuvens maiores. Ao longe as terras cultivadas e a casa do caseiro. A história dos ratos gerou alguma polémica ridícula que se centrou mais entre os filhos dos Avós, estes e os meus primos mais novos. Os primeiros propunham uma desratização, os segundos negavam peremptoriamente a existência de roedores e os terceiros apelavam à evidência. O Natal que estava à porta, esperava silenciosamente que o problema fosse decidido ordeiramente pela família. As crianças temiam que os ratos tomassem conta das suas prendas. Nunca mais poderiam ir brincar para o sótão. Abrir de novo o baú e brincar com as velharias, estava completamente de parte. Nunca brincar às escondidas na casa dos Avós teve tão pouca piada. Os melhores sítios estavam vedados pelo receio dos primos mais novos. Já ninguém os escolhia: a adega, o vão das escadas, o sótão, o armário dos quartos, o canto da lareira. Não tinha piada. A questão nunca se resolveu e o Natal passou com a família reunida. Não ficou na memória. Esqueceram-se os ratos porque nunca se viram. Hoje os meus primos mais novos são também os meus primos mais “velhos”. Dizem-me que não acreditam nos ratos com a frieza de quem conta as histórias do Pai Natal que já acreditou e com elas tantas vezes adormeceu. Hoje, eu, mais novo, acredito nos ratos da casa dos meus Avós e acredito que não tem mal nenhum. Qualquer casa dos Avós, na aldeia, grande como a dos meus, tem que também ter ratos. São as medalhas conquistadas de uma casa que se acha idosa, imensa no tempo, onde outrora esteve sempre muita a gente a tomar refeições e a dormir. São os sinais do uso, da preguiça dos novos tempos, os objectos que já não se utilizam, a velha máquina de costura, a braseira, o tear, o relógio de parede, os fatos, as máquinas, o rádio e a mobília. São as marcas de um novo tempo que a casa não adopta. É a fúria não rendida dos valores de outrora. A casa dos meus Avós tem uma televisão a cores com controlo remoto que os filhos ofereceram. Felizmente nunca se habituaram a tal modernice e continuam a usar as pernas já cansadas para se levantarem da cadeira e as mãos para mudarem o canal ou por o som mais baixo. Continuam a acordar com o galinho, mestre de cerimónias na questão do bom dia matinal ou pela percepção da luz que entra sorrateira pelas portadas de madeira do seu acomodado quarto. Continuam com o relógio de parede a dar horas, a lavar a roupa no tanque com água muito fria que sai de uma mina que lhes pertence, a fazer o seu próprio vinho no velho lagar de pedra, a cozinhar no comprido fogão de lenha e a fazer um delicioso arroz de cabidela. Espanta-me que uma casa assim não tenha que ter um casal de ratinhos e tenha esse facto sido o motivo decisivo para os meus primos, agora mais “velhos” que eu, terem deixado de se divertir e sentir bem em casa dos meus Avós. Vivem na cidade, num apartamento com parabólica, atendedor de chamadas, porteiro, uma varanda com vista para outras varandas e uma garagem onde, juram, não haver ratos para estragar o sonho.

3 comentários:

Pedro BM disse...

Já sei uma das localizações possíveis do teu longe: a tua casa dos teus avós.

toninho disse...

Gostei !! Vamos ver até que longe vai o teu longe.
ABRAÇO

Anónimo disse...

Muito Obrigado por me transportares até à Casa com odor a Laranjeiras...
Um beijo,
MBones